Chamadas: Chamada para o número 1 de 2018

Dossiê: Representações do corpo na literatura e nas artes: do humano ao pós-humano

Editores/Organizadores: Shirley Carreira (UERJ), Daniele Fortuna (UNIGRANRIO), Maria Aparecida Fontes (Università degli Studi di Padova).

Este número da revista E-scrita reunirá artigos sobre representações do corpo na literatura e nas artes. As transformações do corpo sempre estiveram intimamente relacionadas ao advento de novas tecnologias, hoje centrais para a condição pós-antropocêntrica e para as interconexões entre o humano e o Outro maquínico. As técnicas fotográficas, por exemplo, passaram a mostrar o sujeito em fragmentos, isolando os detalhes do corpo. O cinema, por sua vez, instituiu a “decomposição mecânica dos movimentos”, explorando a “pose e a encenação elaboradas” (MICHAUD, 2009, p. 543-545). Os avanços da medicina também vêm contribuindo para essas transformações, possibilitando não apenas a exploração interna dos corpos, mas a fabricação de extensões, que culminaram no surgimento do “corpo pós-humano”, que representa, segundo as palavras de Santaella (2008, p. 192), “parte de um circuito integrado de informação e matéria que inclui componentes humanos e não humanos, tanto chips de silício quanto tecidos orgânicos, bits de informação e bits de carne e osso”.
Conforme Michaud (2009, p. 552), “(...) nossos corpos não têm mais exatamente os contornos de antigamente. Já não sabemos muito bem quais são seus limites, o que é possível ou lícito, o que pode ser mudado no corpo sem que mudemos de identidade ou não.” Tanto o corpo pós-humano quanto o corpo da beleza caracterizam-se pelas mutações facilitadas pelas cirurgias estéticas, de mudança de sexo, pelo body-building, pelos enxertos e dietética, pelas possibilidades de modificação genética e de clonagem.
Enquanto concepção pós-humanista, a fusão humana e tecnológica (HARAWAY, 2000) concretiza-se em um novo composto transversal, um novo tipo de unidade eco-filosófica, não muito diferente da relação simbiótica entre animal e o habitat planetário. Essas experiências que facilitaram a elaboração de um novo contexto para o sujeito pós-humano apoiam-se nas práxis, não nas doxas, e baseiam-se em estruturas relacionais neutras, desvinculadas das doutrinas do Humanismo, que interpretaram e guiaram a capacidade humana, biológica, racional e moral à luz do conceito de progresso racional, orientadas teleologicamente pelo modelo hegemônico de civilização. Nesse sentido, como o corpo é representado na literatura e nas artes?
Este número da revista e-scrita receberá submissões de artigos que explorem as representações do corpo em diferentes contextos culturais a partir de abordagens teóricas que privilegiem os seguintes eixos:

O corpo: humano, inumano e pós-humano - discussões teóricas
O corpo pós-humano na ficção científica, nas HQs, no cinema e nos videogames
O corpo abjeto e monstruoso na literatura gótica e nos goticismos
Corpo, gênero, sexualidade e etnia
Figurações do inumano na literatura e no cinema
O corpo no imaginário feminino
O corpo nas artes visuais e performativas


Referências

HARAWAY, Donna. A Cyborg Manifesto. The CyberCultures Reader. Ed. David Bell and Barbara Kennedy. London: Routledge, 2000, p. 291-324.

MICHAUD, Yves. Visualizações – o corpo e as artes visuais. In: COURTINE, Jean-Jaqcques. História do corpo. Vol. 3. Petrópolis, Vozes: 2009.

SANTAELLA, Lucia. Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2008